Shopping Center: Sintoma de uma Cidade Doente

Imagem

   Atualmente vêm sendo inaugurados vários shoppings centers na cidade de Salvador, e há quem ache que isso é sinônimo de desenvolvimento. Porém, o que isso reflete na realidade, é o total estado de decadência dos nossos espaços públicos.  Quando o shopping passa a ser uma necessidade e não apenas mais uma opção, isso é sinal de que a cidade se encontra terrivelmente adoecida.

Quando o engarrafamento é sufocante e não encontramos estacionamentos tão facilmente, quando as ruas não são agradáveis aos sentidos (ruas feias, fétidas, com poluição sonora e visual), quando há uma constante sensação de insegurança, quando a infraestrutura das ruas é decadente, as calçadas quebradas e você tem que disputar o espaço com carros e camelôs, obviamente a melhor solução é nos refugiar em um ambiente mais agradável e de fácil acesso como um shopping center, para fazer nossas compras e satisfazer nossas necessidades de lazer.

Fatores que causam desconforto em locais públicos:

– Psicológico – Medo da violência, que gera uma reação de alerta constante que faz o corpo produzir hormônios do estresse (adrenalina e cortisol).

– Visual – Ruas feias, esburacadas, mal organizadas, prédios sem manutenção.

– Olfativo – Ruas fétidas.

– Tátil – Calçadas quebradas. Lugares sujos.

– Térmico – Problema que poderia ser resolvido com paisagismo adequado e implementação de soluções tecnológicas. Além disso, a alta densidade de pessoas e carros contribui com esse fator.

– Proxêmico – O ser humano, de um modo geral, apresenta necessidades proxêmicas específicas, isto é, a necessidade de manter certa distância de outras pessoas e de objetos. Essa distância é como uma extensão do corpo físico e funciona como uma barreira invisível. Violar esse espaço mínimo necessário, causa desconforto e estresse no indivíduo.

Quando o poder público é incapaz de solucionar os aspectos de qualidade dos espaços públicos, os shoppings centers aparecem como soluções para supri-los e remendar essa grande falha de mercado. Esse modelo de empreendimento é uma solução imediatista para locais subdesenvolvidos.

Cidades que dão certo, que nos encantam e são reconhecidas por seu charme, tem sempre um fator em comum: a vida intensa ocorrendo nas ruas. Uma cidade viva é uma cidade fluida, com lugares estratégicos para o livre trânsito e convivência de pedestres, cujo comércio não precisa se refugiar em cápsulas privadas. Nessas cidades, é comum encontrarmos calçadões e vielas para trânsito exclusivo de pedestres, com lojas, bares, cafés, cinemas e restaurantes ao ar livre. É o caso de vários locais em Nova Iorque, Veneza, Paris, ou até mesmo a Zona Sul carioca, que é, inclusive, a área mais valorizada do Brasil. Nesses lugares, torna-se desnecessário o modelo de shopping enclausurado, por que é na rua que tudo acontece. O Pelourinho, é um dos pouquíssimos lugares atrativos em Salvador, por ainda ter um pouco dessa característica de vivacidade, embora esteja ilhado em uma zona altamente perigosa da cidade.

Como exemplo de projetos interessantes de requalificação de espaços públicos, podemos citar o caso da via comercial Vidal Ramos no centro histórico de Florianópolis, em que foi feita a revitalização das fachadas, da pavimentação e implementação de iluminação adequada e de mobiliário urbano – bancos, lixeiras, floreiras e tótens. A medida valorizou o cenário, diminuiu a ociosidade da região aumentando o número de pedestres e vitalizou a área.

Rua Vidal Ramos – Florianópolis

Quanto mais shoppings são construídos, menos investimentos são feitos para uma reforma urbana, que melhore o fluxo, infraestrutura e o transporte público. Quando um shopping é construído, cria-se uma zona de concentração de pessoas em determinado local, enquanto outras áreas da cidade se tornam ociosas. Essas áreas ociosas, tornam a cidade morta, estéril, além de se tornarem redutos de violência.  Precisamos pensar nas ruas como locais de convivência em comum e não como mero espaço de passagem de carros. A rua é o espaço de todos, e não de ninguém.

Exemplos de locais em que os shopping centers não são necessários:

Nova Iorque

Imagem

Bruxelas

Imagem

Ipanema – Rio de Janeiro

Imagem

Buenos Aires

Imagem

Madrid

Rua Oscar Freire – São Paulo

Milão

Anúncios

14 pensamentos sobre “Shopping Center: Sintoma de uma Cidade Doente

  1. Realmente, Fabricio, vc disse tudo! Nunca tinha visto com esses olhos, vc me abriu para novos pensamentos e opinião diferente sobre investimentos em shoppings!! Menos shoppings, mais ruas!!!! 😀
    Te amo!

  2. Third Street Promenade em Santa Monica, Califórnia, também um bom exemplo, e até o templo do luxo, Rodeo Drive em Los Angeles, onde encontramos famosos e bilionários andando na rua, entre diversos outros exemplos….

  3. Sem dúvida é isso que Salvador precisa. Até Feira tem mais dessa vivacidade nas ruas, o problema é que a única coisa que Feira oferece é comércio (e calor Rs).

  4. Ótima análise meu caro, tive a oportunidade de conhecer essas “ruas vivas” em Floripa e Buenos Aires e é realmente isso que falta em Salvador, tornar a “cidade viva”.

    Não muito longe daqui temos Aracajú com uma orla que é ocupada até altas horas da noite, além das 22horas. Aqui ninguém tem coragem de sair 18:30 na orla, imagine hehehe

    • Pois é Márcio! É uma pena. É preciso muita concientização e planejamento pra resolver pelo menos um pouco dos problemas urbanos daqui. O bom é que hoje em dia, mais brasileiros tem oportunidade de viajar e perceber outros tipos de realidade.

  5. Salvador é uma perda de tempo desde 1549, e essa a sensação que tenho tendo de viver aqui, mas tendo a oportunidade de viajar constantemente pelo mundo!

  6. Muito bom,cara!
    Ler esse artigo foi importante, pois dou estudante de arquitetura, e
    estou com uma outra visão sobre todos esses aspectos falados.
    Valeu mesmo.

  7. Olá Fabrício!

    Tudo bom? Meu nome é Camila e sou repórter do jornal impresso Cinform, de Aracaju. Estou fazendo uma matéria sobre a valorização de terrenos próximos a shoppings (aqui em Sergipe serão instalados mais quatro em breve). Achei essa visão muito interessante e gostaria muito de publicar sua opinião no jornal, como um contraponto à questão, lhe dando os devidos créditos.

    Se você tiver interesse, entre em contato comigo através do meu email: milamoda.jor@gmail.com

    Seu texto é realmente muito bom, parabéns.

  8. Boa tarde Fabricio, parabéns pela postagem, muito interessante! O texto é de sua autoria? Tem alguma bibliografia sobre o assunto?
    Abraço

    • Olá Rafael. É sim de minha autoria. Em relação a bibliografia eu posso recomendar “A Dimensão Oculta” de Edward T. Hall (que trata sobre a proxêmica) e “Morte e Vida das Grandes Cidades” de Jane Jacobs (que questiona os modelos de planejamento urbano de algumas cidades). Esse último vale muito a pena ser lido.

      Abraço!

  9. Legal Fabrício! Nós utilizamos seu artigo em uma matéria em nosso site, e claro, creditamos você! Notei que seu texto foi usado como base para inúmeras matérias, em diversos sites e ninguém colocava a fonte, bom, nós colocamos rs, por isso entrei em contato com você. Se puder dá uma passada por lá, esperamos que goste da nossa abordagem, pois somos um coletivo de videomakers de São Paulo e temos uma coluna de variedades em nosso site: http://www.trimvideo.co/#!SHOPPINGS-ABANDONADOS-VIRAM-VERDADEIROS-CENRIOS-DE-CINEMA/c593/A779A407-EFA5-48BA-8100-29244B23D237

    Se puder curte a nossa página no facebook, ficaríamos lisonjeados: http://www.facebook.com/trimvideo.co

    Abraço!

  10. Pingback: Completamente surreal: Fotos de dentro de shoppings abandonados nos Estados Unidos | Blog da Dot. Imóveis

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s